Foi uma noite memorável que ficará registrada na história de Araraquara. Reunidos no saguão principal do Teatro Municipal da cidade, autoridades e lideranças políticas, artistas e a imprensa para acompanhar o lançamento do livro “Ruth Cardoso – Fragmentos de Uma Vida”, uma homenagem à filha ilustre de Araraquara feita também por um filho ilustre, o escritor Ignácio de Loyola Brandão.
Além do prefeito e do próprio escritor, a noite ainda teve a brilhante presença do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, esposo da homenageada que chegou ao local por volta das 20h. A abertura do evento aconteceu com a apresentação da “Camerata de Araraquara”, uma orquestra composta por um grupo de cordas - violinos, violoncelos e contrabaixo. A Camerata é um projeto da Secretaria da Cultura e Fundart e tem como regente, o maestro Luciano Lopes.
O primeiro a falar foi prefeito Marcelo Barbieri, anfitrião da noite. “É um livro simples, cordial que retrata a vida de uma mulher que marcou a história de Araraquara e do Brasil. Essa simplicidade, essa cordialidade se espelham também em Ignácio (de Loyola Brandão)”.
Na abertura de seu discurso, Loyola mais uma vez homenageou a primeira-dama do Brasil: “Essa é uma noite de Ruth Cardoso, mais ninguém”, diz categoricamente. Na continuidade de sua fala, ele retrata como foi escrever o livro: “Escrevi o livro a minha maneira e a maneira araraquarense, com simplicidade da palavra para retratar os fatos”, diz.
Sobre Ruth, ela frisa: “Ela mudou o conceito e dignificou a palavra “primeira-dama” com imenso sentido social. A medida que fui escrevendo o livro eu fui me apaixonando cada vez mais por ela. Ruth foi uma mulher impressionante. Ela transformou o Brasil e o Brasil ainda vai descobrir isso”.
Antes de sua fala, Fernando Henrique Cardoso recebeu um quadro que retrata o famoso “Bar do Pernambuco”, ponto de encontro de intelectuais, artistas e da sociedade araraquarense nos idos Anos 50 e 60. Emocionado, o ex-presidente diz no início de sua fala: “Não consegui olhar para aquelas fotos”, referindo-se as fotos de Ruth e de Araraquara projetadas no telão armado no saguão.
“Me comove as praças, as ruas, a estação ferroviária, o Bar do Pernambuco, o antigo Teatro Municipal. Eu vinha do Rio e as dificuldades de transportes eram grandes. Mas de tudo, sempre me recordo quando Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram Araraquara no início dos Anos 60. Fui escolhido como tradutor da palestra de Simone sobre “feminismo”. Não sabia direito francês e muito menos sobre o movimento feminista que estava emergindo”, destaca sorridente.
O discípulo de Roger Bastide fala ainda do livro e sobre a importância de não se esquecer de nossas raízes: “Eu escolhi Ignácio para escrever o livro. Um livro com características que deram uma simplicidade sofisticada detalhando passagens e história de nossas raízes. Ruth também ficou apaixonada Ignácio. E isso é importante. Mas nada me toca mais do que ver que Ruth é querida aqui”, finaliza FHC.
No final da cerimônia aconteceu o descerramento da placa homenageando a presença de Fernando Henrique Cardoso na noite e sessão de autógrafos.
Sobre o livro
A indicação do autor do livro, lançado pela Editora Globo, partiu do próprio Fernando Henrique. Marido de Ruth, o ex-presidente diz que a antropóloga gostava do estilo de Loyola
“O perfil que Loyola descreveu de Ruth na Revista Vogue a emocionou e a fez sorrir; por meio dele, recuperou a cidade que lhe parecia perdida”, afirma FHC, em entrevista à Agência Estado.
Intelectual que evitava ser chamada de primeira-dama, Ruth Cardoso morreu em julho de 2008, aos 77 anos. Ela foi uma das primeiras a perceber a emergência dos movimentos sociais que abrigavam diversidades, como feministas, étnico-raciais e de orientação sexual, e, na fase de montagem do governo FHC, idealizou o programa Comunidade Solidária.
Trata-se mais de “um longo perfil de Ruth Cardoso do que uma biografia”, diz Loyola, que cultivou, depois de algum tempo, uma relação mais próxima com ela. “Retrato alongado, com detalhes que a maioria desconhece. A Ruth dos bastidores, a mulher por trás da catedrática, da doutora, a primeira dama, da feminista”, resume o autor à AE.























