O Deu e o Diabo no cinema brasileiro

Polêmico e inconformado com o pensamento cultural brasileiro – dilacerado e em plena decadência nas décadas posteriores -, nos anos 60 e 70, Glauber Pedro de Andrade Rocha, ou simplesmente Glauber Rocha, foi a alma do cinema brasileiro, a alma do Brasil.

Em 1981, ele deixou de incomodar, de dar suas alfinetadas na produção cultural brasileira. Um dos principais cineastas de sua geração deixou, para a história do cinema mundial, verdadeiras obras de arte: Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe, Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro entre outras.

Escreveu seu nome ao lado de Pasolini, Orson Wells, Fellini, Godard, De Sica, Buñuel e muitos outros mestres do cinema de sua época. O que para uns esta afirmação parece ser absurda, para muitos, simplesmente, ele está onde merece estar.

O Cinema Novo teve seu mestre, o cinema nacional seu líder. A vida de Glauber foi marcada por divergências e contradições. Amado e odiado era favorável à desestatização da cultura brasileira. Muitos hoje o chamam de visionário. O seu mundo místico universalizou a cultura brasileira através de Corisco, ícone do herói maldito.

Na principal cena do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, o duelo com Antônio das Mortes, foi o grande marco no Cinema Novo. A plasticidade e a estética fizeram buscar movimentos e sentidos no mundo brechtiano, segundo declaração do próprio ator Othon Bastos, que interpretou o personagem Corisco.

Pregava o anticristo. Criava inimigos. Sempre aquele que ousava questioná-lo, Glauber soltava seus dragões. Vivia num mundo em transe num país do “terceiro mundo”. Toda a sua vida foi assim. Jogou pesado com o pessoal da Vila Mariana, em São Paulo. Apelidou o cinema marginal de Rogério Sganzerla e outros cineastas, de “cinema udigrudi”, parafraseando, de forma irônica, a palavra underground.

Em Carta-Testamento escrita alguns meses antes de sua morte, e publicada quinze anos depois na mídia impressa, não perdoou ninguém. Atacou colegas do Cinema Novo e atemorizou a estrutura da produção artística brasileira que, segundo ele, caía na mesmice e na pieguice elitizada. Nunca o Brasil produziu tantos filmes e nunca o cinema brasileiro foi tão premiado e respeitado no exterior como na década de 60.

Entretanto, falar em Cinema Novo é falar de Glauber Rocha e as silhuetas de um Brasil desconhecido. A luta anticolonialista e a concepção de edificar um cinema nacionalista no Terceiro Mundo, inspirado no neorrealismo europeu trazia à tona o idealismo que simbolizou o Cinema Novo: uma câmara na mão e uma ideia na cabeça.

Em outras palavras, Glauber experimentou fazer cinema e profetizou o futuro do cinema brasileiro. O mundo aplaude o menino ranzinza, baiano de Vitória de Conquista, miscelânea de Deus e Diabo.

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