A ciência no existir do homem

Transcorrer sobre um dos principais livros sobre a filosofia brasileira lançado no país recentemente sobre Rubens Alves e Farias Brito não é um papel fácil, principalmente quando estão em questão pontos tão complexos deste cenário que transcendem o tempo: homem e ciência, o homem e natureza. As efêmeras mudanças ocorridas nos dias atuais ainda colocam em xeque pontos primordiais sobre o existir do homem.

Para responder estas indagações, o professor de Filosofia no Brasil e na América Latina da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), Antônio Vidal Nunes sustenta suas argumentações em dois mundos, contemporâneos entre si, no seu recém-lançado livro “Filosofia brasileira: a ciência e o homem no pensamento de Farias Brito e Rubem Alves”, pela editora Edufes. Na primeira parte do livro, como suporte às discussões que serão apresentadas nos capítulos seguintes, ele busca desvendar estas facetas nos escritos dos filósofos brasileiros Farias Brito (1862-1916), cearense, e Rubem Alves, mineiro nascido em 1933.

Vivendo no período de plena transformação política e social, Farias Brito vê os seus ideais abolicionistas se contraporem aos vícios enraizados na estrutura do Estado brasileiro que acabara de aderir ao regime republicano. Mas, o filósofo cearense tinha uma particularidade de ver o mundo. Mesmo sob influências familiares presentes em seus pensamentos, pressupostos que o levaram a ser um severo crítico às ideias positivistas da época, Brito acreditava que o homem transcendia o mundo racional, que as respostas estavam muito além de um simples olhar do real.

Para aprofundar-se ainda mais esta discussão, o autor traça um paralelo com Rubem Alves, para quem na vida tudo se torna espiritual e humano. O filósofo mineiro afirma que as estruturas sociais, políticas e econômicas exercem um papel relevante no processo de transformação do homem e da sociedade. No entanto, ele destaca que tudo não tem a menor relevância se não sonharmos: “como pensar as mudanças sem a contribuição do corpo que sonha e imagina das emoções que dinamizam esse processo”.

Segundo Antônio Vidal, nas suas considerações finais, esta simetria no pensar destes dois filósofos brasileiros – que apresenta um homem sonhador, que transforma e recria a história – se contrapõem ao papel da ciência, para quem “os holofotes não são adequados para compreender certas regiões do universo humano”. Ele afirma ainda que os métodos objetivos da ciência mais cobrem do que revelam o homem em seu ser essencial. Em outras palavras, o homem não está desprovido de emoções, de elementos afetivos que estimulam suas atividades.

O livro chega num momento relevante para o atual contexto histórico. Numa linguagem clara e objetiva, ele revela as facetas de dois dos principais filósofos brasileiros. Antônio Vidal inicia sua carreira literária com um grande ensaio filosófico e rompe com o estigma conservador no meio universitário e discute “filosofia brasileira” na sua essência.

“Às vezes, o mundo existente não é capaz de conter nossos desejos. Todas as vezes que isso ocorre, transbordamos para além das fronteiras dadas, e novos territórios antes desconhecidos e impensados se criam. Como vimos um dos instrumentos mais importantes do corpo é a imaginação”.

Sobre o autor

Natural de Manaíra/PB, Antonio Vidal passou sua infância em Américo Brasiliense onde, ainda hoje, residem seus familiares. Na adolescência, muda-se para Campinas onde começa sua carreira universitária. Professor de Filosofia no Brasil e na América Latina, pelo Departamento de Filosofia da UFES, ele é mestre em Filosofia da Educação (Unicamp); doutor em Filosofia da Educação (USP); e, pós-doutor em Filosofia (UFRJ).

Matéria reproduzida

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