Vinte anos sem o “malungo”

Se a alegria dos carnavais de Recife e Olinda contagia ainda hoje todo o Brasil, em 1997 foi diferente. Sobre o viaduto de Santo Amaro, no início do Complexo de Salgadinho, Francisco de Assis França dirigia um Fiat Uno que, desgovernado, bate em um poste de concreto. Eram exatamente 18h30. No caminho para o Hospital da Restauração, ele morre.

A notícia se espalhou. O silêncio tomou conta dos foliões, orquestras e maracatus. O malungo Chico Science, maior expressão do Movimento Manguebit, acabava de morrer. O desespero agonizava as ruas de Olinda e Recife. As lágrimas do mangue se espalhavam pelas tristes ruas das duas cidades e o artista, de apenas 31 anos de idade, se despede em Santo Amaro, onde tudo começou.

Responsável pelo surgimento da principal manifestação musical pós-tropicália, Chico Science foi um dos principais ícones de uma geração que – rotulada de “geração coca-cola” – corria o risco de ver sua criação artística ser devorada pelo supra-sumo da indústria cultural.

Se alguém um dia indagar o porquê Chico Science, a resposta estava, segundo ele, na mistura musical que incluía a black music e a música de raiz, como maracatu e coco de roda. Eis aí o balaio musical batizado de manguebit que no início dos anos 90, diretamente dos mangues recifenses, veio revolucionar a música brasileira.

Da lama sai o malungo

Participando de grupos de hip-hop em meados de anos 80, entre eles Legião Hip Hop, Chico já mostrava sua inventividade artística. Em 1987, integrou a banda Orla Urbe, o seu primeiro trabalho musical. Nessa época, ele ainda não era Chico Science. Depois, vieram outros trabalhos como o Loustal – nome inspirado no quadrinista francês Jacques de Loustal – junto com Lúcio Maia e Alexandre Dengue. O estilo da banda tinha como base a black music apimentada com um pouco de rock e ska.

Em junho de 1991, forma-se a banda Chico Science e Lamento Negro, bloco afro do centro comunitário Daruê Malungo. No entanto, em junho do mesmo ano, o público assistiria ao primeiro show da banda agora denominada de Chico Science e Nação Zumbi (CSNZ), no espaço Oásis, em Olinda.

Os jornais começaram abrir espaço para o novo estilo musical recém saído do casulo. Suas apresentações eram compostas por um público eclético, entre eles músicos, artistas plásticos e punks.

Em 1992, junto com a banda Mundo Livre S/A elabora a coletânea “Caranguejos Sem Cérebros”. Realizaram vários shows em Belo Horizonte e São Paulo. Este trabalho resultou no contrato com a Sony Music. O primeiro trabalho com a nova gravadora foi “Da Lama ao Caos”, finalizado em 1994.

Daí em diante, por onde a banda passava a marca da música do mangue ficava. Novas idéias e novos projetos foram surgindo, principalmente nas apresentações no exterior – Estados Unidos e Europa.

Dois anos depois, surge o trabalho “Afrociberdélia”, com pitadas eletrônicas e participações especiais de Marcelo D2 (Planet Hemp), Fred 04 (Mundo Livre S/A) e Gilberto Gil. Novamente, a turnê se repete e o grupo passa o ano na estrada.

A morte precoce de Chico Science, na noite de 02 de fevereiro de 1997, interrompe a carreira daquela que veio para marcar o movimento artístico e musical brasileiro na década de 90. Liquidificando ritmos musicais, o malungo de Recife mostrou que a lama dos manguezais foi a essência de sua criatividade musical. Quem não captou os sinais continuará sendo um caranguejo sem cérebro.

Que rugem os tambores!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s