Festival de Águas Claras, o nosso Woodstock

O evento que aconteceu em Iacanga, interior paulista, reuniu grandes nomes da música brasileira

Tudo começou em 1974, num bate-papo informal na Fazenda Santa Virgínia, em Iacanga, região central do Estado. Antonio Checchin Jr., o “Leivinha”, sonhava em fazer uma festa com a amiga Amarelis Gibbeli, na propriedade de seu pai. Era para ser uma festa regional, um baile do interior. A coisa tomou vulto e acabou virando uma celebração.

Para quem tem menos de 40 anos, talvez essa seja a primeira vez que esteja ouvindo falar de um dos festivais que sacudiu o interior paulista e marcou a música brasileira nas décadas de 70 e 80. Estamos falando do Festival de Águas Claras que aconteceu na Fazenda Santa Virgínia, em Iacanga. Chamado de Woodstock Tupiniquim, o evento teve quatro edições (1975, 1981, 1983 e 1984) com apresentações de grandes nomes da música brasileira nos seus mais variados gêneros musicais.

Shows que variavam entre o rock lunático de Raul Seixas, a jovem guarda com Erasmo Carlos e Vanderléia, os Mutantes da Tropicália, o forró de Oswaldinho, Sivuca, Hermeto Paschoal e Luiz Gonzaga, o instrumental de Arthur Moreira Lima e Vagner Tiso, a MPB de Moraes Moreira, Jorge Mautner e Egberto Gismonti, Sá & Guaruabira, Fagner, Tetê Espíndola, Erasmo Carlos. A primeira edição do evento, em 1975, contou com a participação especial de João Gilberto. Estes são alguns dos grandes nomes da música brasileira que participaram do principal festival de música do Brasil até então.

Tudo parecia ser um sonho, uma celebração de um momento de paz, de amor e de liberdade. Famílias com crianças, pessoas adeptas ao nudismo, hippies e jovens que respiravam Jimmi Hendrix e outros artistas “rebeldes” da época curtiam sons com pitadas de Arthur Moreira Lima a Raul Seixas.

Reprodução: Google

Um prenúncio à democracia

Apesar das adversidades e o clima político tenso na época, nenhum incidente fora registrado. Mas tantos os jovens como os artistas deixavam suas mensagens, seus gritos de protesto. Se o Woodstock, nos Estados Unidos, ecoava gritos contra a Guerra do Vietnã, no Brasil, os ecos eram a contra o regime militar instaurado no país desde 1964.

Muitas histórias e lembranças de um momento que não voltará mais. É isso o que pensam todos aqueles que “estiveram lá”. Santa Virgínia era um enorme camping aberto – com banheiros comunitários, hippies, nudismo e famílias.  O silêncio do ambiente pacato e interiorano era rompido pelos sons das guitarras e vozes que se dispersavam no horizonte.

“Assim como em Woodstock, não dá para lembrar na integralidade tudo o que rolava naqueles festivais na Santa Virginia – ou você ‘nunca esteve lá’. Os bons tempos com Itamar Assumpção, Moraes Moreira e tantos outros eram, ao mesmo tempo, encontros de liberdade que prenunciavam a democratização e a ideia de ecologia. Me lembro que o Hermeto Pascoal ficou fascinado por um chiqueiro. E começou a tocar com os porcos! Isso é interessantíssimo”, afirma Jorge Mautner, em entrevista à revista Rolling Stones do Brasil.

Vídeo documentário de Adauto Nascimento, jornalista bauruense

Algo surrealista

Era algo surrealista que contrapunha os valores culturais de uma geração. Sob calor, chuva e lama e muitos amores, jovens rolavam noite adentro assistindo aos grandes shows que aconteciam. Os artistas eram transportados por tratores do hotel, de onde estavam hospedados até o palco do show. Dá pra imaginar essas cenas, hoje?

Todos que foram têm sua história, suas aventuras e guardam esses momentos como os melhores de suas vidas. O astral que laureava o festival tornava-o especial. Artistas queriam se enfiar lá para dar sua palhinha. Foi uma verdadeira quermesse musical. Imagine que até João Gilberto foi lá, bem humorado, dar uma palhinha.

Festival de Águas Claras foi um divisor cultural brasileiro. Um festival que agregou o jeito interiorano de viver com a liberdade, o amor e a protesto pacífico em pleno regime militar. Quem lá esteve jamais esquecerá. Aos demais mortais resta-lhe apenas a nostalgia.

Artistas participantes do Festival

Edição de 1975 – Os Mutantes, Som Nosso de Cada Dia, Terreno Baldio, Apokalypsis, Walter Franco, Ursa Maior, Moto Perpétuo, Jazco, Tibet, Burmah, Grupo Capote, Jorge Mautner, Acaru Raízes, Corpus, Mitra, Marcus Vinicius, Nushkurallah, Rock da Mortalha, João Gilberto, O terço entre outros.

Edição de 1981 – Gilberto Gil, Luiz Gonzaga, Alceu Valença, Egberto Gismonti, A Cor do Som, Moraes Moreira, Bendegó, Hermeto Paschoal, Papete, Almir Sater, Duduca e Dalvan, Consertão, 14 Bis, Oswaldinho, Diana Pequeno, Novos Valores, Raul Seixas, Tetê Spindola e Zé Geraldo

Edição de 1983 – Armandinho e o Trio Elétrico de Dodô e Osmar, Arthur Moreira Lima, Egberto Gismonti, Fagner, Grupo Premê, Jorge Mautner, Sandra Sá, Moraes Moreira, Oswaldinho, Paulinho da Viola, Paulinho Boca, Raul Seixas, Sá e Guarabira, Expresso Rural, Sivuca, Wanderléia, Walter Franco, Erasmo Carlos, Wagner Tiso, Língua de Trapo, Participação especial de João Gilberto entre outros.

Edição de 1984 – Não há informação precisa sobre os artistas participantes nesta edição.

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