Corujas e pirilampos bailam no país dos generais

Imaginemos uma época de pura expressão artística e a criatividade à flor da pele. A música brasileira se eletrificava com a Tropicália & Jovem Guarda, a Bossa Nova com seus acordes ímpares, o cinema brasileiro transitava do Cinema Novo à Boca do Lixo.

Assim eram os inícios dos Anos 70. O Brasil respirava e produzia arte em pleno regime militar. Mas, quando tudo parecia o óbvio eis que surge um furacão na música brasileira que transgrediu todas as convenções, transcendeu no palco com suas apresentações ousadas, extravagantes e poéticas.

Composto por Ney Matogrosso, João Ricardo e Gérson Conrad, o grupo Secos & Molhados chegou e virou a maior expressão musical no Brasil no início dos Anos 70. Músicas como “O Vira”, “Sangue Latino”, “Assim Assado”, “Rosa de Hiroshima” que misturam danças e canções do folclore português, críticas à ditadura militar traziam em suas letras nomes como Cassiano Ricardo, Vinícius de Moraes, Augusto Boal, Oswald de Andrade, Fernando Pessoa e João Apolinário.

Suas canções traziam pitadas da MPB, rimas poéticas dedilhadas ao estilo do glam rock (nascido no final dos Anos 60 e popularizado nos Anos 70 na Inglaterra, grupos se apresentavam com trajes e performances com muitos adereços: cílios postiços, purpurinas, saltos altos, batons e lantejoulas, paetês e trajes elétricos de seus cantores) ao rock progressivo. Assim, o grupo se tornou referência de uma geração.

Para citar apenas uma passagem desse alvoroço que se tornou Secos & Molhados, depois de várias aparições em programas de televisão em cadeia nacional, em fevereiro de 1974, Secos & Molhados fez um concerto no Maracanãzinho e foi um tremendo sucesso. Além das 30 mil pessoas presentes ao ginásio, outras 90 mil ficaram do lado de fora.

Neste mesmo ano, depois de uma turnê internacional, o grupo lança o segundo disco, com destaque para “Flores Astrais”. Após o lançamento e por desentendimentos financeiros, a formação clássica do grupo se desfaz com a saída de Ney Matogrosso.

Enquanto João Ricardo continuou com grupo e produziu outros projetos musicais, Gérson Conrad e Ney Matogrosso seguiram carreiras solo.

A capa do primeiro disco foi eleita pela Folha de S.Paulo como a melhor de todos os tempos de discos brasileiros. E, até hoje, Secos & Molhados é referência na música brasileira. A revista Rolling Stones Brasil colocou o grupo em quinto lugar, numa lista de 100 maiores discos da música brasileira.

Um fenômeno musical que deu seu recado e ditou normas e convenções num Brasil “careta” que ainda discutia o uso da guitarra elétrica. Secos & Molhados chegou como um disco voador, jurou mentiras, “apavorou” o cenário musical brasileiro e se apagou precocemente, assim como pirilampos que bailam no meio da noite sob olhares de corujas. Eis mais um momento que o tempo eternizou…

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