“Ninguém vai a Brasília a passeio”

Esta manchete é uma frase de Delfim Netto, ex-ministro da Economia no governo João Figueiredo, que retrata de forma sutil as peripécias dos bastidores que movimentam Brasília – uma tentação para qualquer jornalista, para qualquer professor de história. Um mundo imprevisível que se contrapõe ao premeditado. Em algumas situações, os seus próprios personagens desconhecem as regras.

Fonte: Google

Em seu livro de bolso, “As armadilhas do poder: bastidores da imprensa”, o jornalista Gilberto Dimenstein cita que, em 1983, estava em Brasília para cobrir a sucessão do presidente João (Batista de Oliveira) Figueiredo.

Segundo ele, aproveitou a ocasião e foi assistir à uma monótona sessão do Senado. Lá, exaurido com aquele ambiente, fez um ligeiro comentário com um veterano jornalista presente, sentado ao seu lado. “Como esses senadores têm cara de bobos”. Sorrindo, complacente, o velho jornalista lhe respondeu: “(…) é melhor que saiba de uma coisa: o mais bobo deles conserta um relógio no escuro. E com luvas de boxe”.

De acordo com Dimenstein, duas frases resumiam a tática política do experiente Ulisses Guimarães, ditas pelo  próprio Ulisses: “Nem tão próximo que não se possa brigar e nem tão longe que não se possa reatar”. Embora hoje há uma outra esfera política, o velho político pemedebista foi mais além ainda: “Não leve suas brigas para casa. Depois sua mulher não vai entender quando tiver de fazer uma cerimônia elogiando seu inimigo”.

Este tom sarcástico, porém maquiavélico, demonstra que ninguém, por mais experiente que seja, consiga ficar imune as “mazelas” do poder, da política. Temos exemplos explícitos nos dois últimos anos no Brasil. E no mundo há centenas de obras literárias que relatam a queda e a ascensão de grandes líderes.

Todavia, nesta teia conspiratória o maestro da sinfonia, o inimigo “oculto”, está mais próximo do que se imagina. Ele sempre aparece com um sorriso amigo no rosto. E como um final à Sherlock Holmes, a culpa sempre recai ora no mordomo, ora no motorista, ora na secretária e ou até mesmo na cafetina… “Elementar meu caro Watson: Brasília também é assim”.

Para os mais simples dos mortais, quando se está tête-à-tête com as arquiteturas brasilienses – a Esplanada dos Ministérios, o Palácio do Planalto, a Praça dos Três Poderes e até o Lago de Paranoá – nota-se que o poder tem sua aura corruptora.

Planejada por Oscar Niemeyer, a Capital federal mescla status de ascensão e bancarrota. Aqueles poucos que nela sobrevivem sabem costurar com artimanha as manobras políticas.

Mas, caso bancarrota bata na porta daquele velho e novo político, a melhor coisa a fazer é ele ir até a Praça dos Artistas, no centro da cidade, saborear um bolinho de bacalhau. Quem sabe ali lhe inspire novas oportunidades e velhas conspirações…

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